Refletir sobre um Universo em contínua expansão e movimento - nosso sistema planetário, com seus diversos satélites, gira em trajetórias quase circulares em volta de a estrela solar - torna muito oportuno e conveniente analisar e estudar esse fenômeno integral - natural, para aproveitar a inesgotável energia cinética armazenada nas principais bacias fluviais e marítimas da Terra, para transformá-las em imensos rios de eletricidade.

Quer dizer, a essência dos movimentos de rotação e translação - os quais associam quaisquer fenômenos meteorológicos e definem o clima terrestre - é proporcional à permanente energia hidrocinética a ser extraída de rios caudalosos e estreitos marítimos. Sabemos que a velocidade da água nos sistemas fluviais e marítimos, com a mesma direção dos deslocamentos de Ocidente para Oriente, é maior que a das outras correntes que fluem no sentido oposto. Ainda assim, todo sistema hidrelétrico que cumpra as linhas técnicas básicas e seja viável e útil resultará sumamente atrativo para produzir abundante energia limpa e renovável.

Sendo a velocidade de translação da Terra em torno do Sol de 29.470 m/s, e com a velocidade de rotação dependente da latitude - no equador, 445 m/s; na latitude 45°N, 298 m/s -, teremos a perspectiva do imenso potencial energético disponível no Universo e de seu uso favorável nas zonas bem definidas do planeta. Assim, ao se atender uma alta percentagem da demanda de energia elétrica mediante uma fonte inesgotável, o crescente consumo de combustíveis fósseis hoje empregados para se gerar eletricidade, com seus inerentes problemas ambientais, será progressivamente reduzido.

Além disso, pela influência do fenômeno da natação (inclinação do eixo terrestre), as chuvas mais intensas e prolongadas, bem como a formação e incidência maior de ciclones e furacões, ocorrem ao norte do equador. Isto significa que as bacias hidrológicas localizadas no hemisfério setentrional e próximo dele contam com um maior volume por unidade de área, comparadas com as bacias situadas ao sul do equador. Esta é uma referência que permite melhor avaliar - junto com os movimentos próprios da Terra - o potencial hidrocinético dos principais sistemas fluviais e marinhos.

Conseqüentemente, e intentando aproveitar as partes médias e baixas dos rios caudalosos que, por suas condições fisiográficas - leitos largos, extensas planícies de inundação, vegetação densa, grandes volumes de sedimentos, relevo desfavorável etc., não permitem construir projetos hidrelétricos convencionais, o critério prevalecente nos sítios propostos para a instalação de Frentes Hidrocinéticos (FHC) modernas e produtivas consiste em:

1. Os sistemas fluviais devem ter vazão abundante e variações moderadas de seus níveis e drenagens. Nas FHC marítimas, tal requisito não é relevante, mas se requer que, em alguns sítios pré-selecionados, os grupos turbogeradores submarinos sejam bem protegidos contra contingências naturais (ciclones, tsunamis, congelamento).

2. Profundidade entre 30-90 m, tanto em rios como no mar, para facilitar a construção e para otimizar o funcionamento. Nos rios intermediários e naqueles sugeridos como modelos naturais para se avaliar os benefícios e vantagens das FHC, a profundidade mínima seria de 15 m. Se necessário, as seções hidráulicas definitivas seriam dragadas e condicionadas, para satisfazer as especificações e normas do projeto e para se obter uma produção energética mais elevada.

3. Uma vez que a maioria das FHC se localizaria em zonas de intenso tráfego fluvial-marítimo, é imprescindível que elas não interfiram com a navegação. Por isso, elas seriam situadas nas partes centrais de rios e estreitos marítimos, em áreas delimitadas com 4-7 km de comprimento e largura dependendo do número de linhas de extração paralelas instaladas. Os condutos de acesso, ventilação e de linhas de transmissão exerceriam, igualmente, funções de sinalização para a navegação.

A qualidade e confiabilidade dos dados básicos dos sítios selecionados - hidrológicos, topográficos, batimétricos e geológicos - devem ser de nível suficiente para garantir o pleno cumprimento dos conceitos, critérios e métodos a serem aplicados, além de elevados índices de eficiência energética, técnica e econômica durante a prolongada vida útil e operação esperada para os equipamentos eletromecânicos subaquáticos.

Assim, os potentes grupos turbogeradores tipo Kaplan-Bulbo ou similares devem ser projetados e fabricados com processos científico-tecnológicos de ponta, para sustentar essa nova era de desenvolvimento industrial, proporcionando a conversão da valiosa energia cinética fluvial e marítima em uma inesgotável geração de energia elétrica e reincentivando o uso intensivo da hidroeletricidade.

Isso significa que a viabilidade técnica e econômica radicaria em lograr que a velocidade da água nas seções hidráulicas definitivas aumenta consideravelmente. Isto exige uma invenção original para desenvolver um rio artificial - que seriam as FHC - dentro de importantes cursos de água e estreitos marinhos. Tal requisito é, sem dúvida, factível, pois se as correntes marinhas funcionam como grandes rios submersos, sua imitação nos projetos é possível segundo conceitos e estruturas especiais.

É importante ressaltar a importância da proteção dos turbo geradores subaquáticos instalados em rios e estreitos marítimos - cimentação, estabilidade etc. -, bem como dos condutos de acesso, ventilação e saída dos cabos elétricos, o que evitaria danos e entrada de água nas casas de máquinas. Da mesma forma, as linhas de transmissão para terra firme (de preferência, em corrente contínua) poderiam ser instaladas em tubulações subaquáticas. Se, no futuro, for possível transmitir eletricidade às subestações de interconexão sem o uso de torres ou cabos condutores - de forma semelhante às comunicações eletrônicas sem fio-obteríamos um avanço exponencial dentro de todo o contexto inovador das FHC.

Com respeito às grandes estruturas tubulares que canalizariam os fluxos hídricos para cada linha de extração-produção, do primeiro ao último equipamento turbogerador, a seção inicial seria retangular, finalizando a transição em forma semicircular (semelhante a uma estufa), com o que, além de satisfazer as estritas características de projeto para fornecer com segurança os volumes exigidos, facilitariam um aumento da velocidade do fluxo hídrico. Para sua execução, os materiais, sistemas de fabricação, montagem, ancoragem e as seções transversais de transição para a manutenção das velocidades de projeto devem cumprir todos os requisitos pré-estabelecidos.

Para uma concretização inicial da aplicação dessa proposição inovadora, proporíamos o rio mais caudaloso do mundo, o Amazonas (sua descarga média na foz, de 175.000 m3/s, equivale à soma dos seguintes rios em importância, Congo, Orenoco, Yangtzé, Ganges e Prata), o que incentivaria empreendimentos semelhantes. Partido do maior para o menor, em contraposição à tendência habitual, poder-se-ia incluir qualquer sistema fluvial que reúna os critérios e normas de planejamento.

São os seguintes os critérios e a ordem geral para o aproveitamento de rios caudalosos, nos quais não seja possível desenvolver projetos hidrelétricos convencionais, bem como em ambientes marinhos que, por suas características, a aplicação dessa nova concepção se mostre conveniente:

a) Não seria necessário executar nenhum tipo de obra civil superficial (represas, vertedores, usinas, obras de desvio etc.), nem instalações eletromecânicas externas, exceto as linhas de corrente contínua que, na medida em que avancem as pesquisas em transmissão elétrica em alta tensão, poderiam evoluir para a completa supressão de torres e cabos condutores.

b) Como não haveria a formação de reservatórios, evitar-se-ia a inundação de áreas habitadas, terras cultivadas, sítios arqueológicos etc., com o que se eliminariam desapropriações e indenizações, além de problemas acarretados pela oposição de organizações políticas, sociais e ambientalistas.

c) Com a possibilidade de fabricação e instalação de potentes grupos turbogeradores, as FHC formadas com várias linhas paralelas de produção e separadas 0de forma proporcional à dimensão dos equipamentos, seria conveniente que a velocidade da atua nas seções de extração se conserve e, inclusive, se incremente dentro de toda a estrutura de condução (uma corrente com fluxo natural e outra com menor velocidade), para que suas dimensões facilitem a fabricação e montagem.

d) O acesso a cada grupo gerador se daria através de acessos (semelhantes a um periscópio de submarino), com altura e geometria apropriadas para impedir o acesso de água ou quaisquer outros materiais durante a temporada de cheias ou a incidência de fenômenos naturais. Isto significa que emergiriam da água unicamente tubos-chaminés, que seriam camuflados para se confundir com as paisagens fluviais e marítimas, mas com a devida sinalização para a navegação.

e) Igualmente, seriam instaladas barreiras de bóias e estruturas-guias para delimitar as zonas exclusivas das FHC e para canalizar o volume total da produção. Estas barreiras flutuantes incluiriam malhas transversais para controlar o acesso da fauna e materiais aquáticos, evitando que animais se firam ou se enredem nas hélices das turbinas.

f) Todos os FHC ocupariam a parte central das seções escolhidas, de forma que o volume de água que passasse pelo primeiro grupo de turbo geradores submarinos seria o mesmo que acionaria a unidade seguinte, e assim sucessivamente, até o último grupo. Isto subentende que, para se aproveitar os recursos de uma bacia de forma normal, sejam instalados projetos em cascata; nos grandes rios, o procedimento seria similar, exceto que as linhas de produção das FHC se situariam no sentido do fluxo.

Assim como se constroem plataformas de perfuração para a exploração de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) do subsolo marinho, e na atualidade já se planeje a exploração de jazidas de recursos não-renováveis em lâminas de água de 3.000 m, o desenvolvimento de turbo geradores submersíveis potentes, seguros e modernos, para extrair-transformar-gerar rios de energia limpa e renovável, se traduz num objetivo congruente para o futuro energético mundial. Isso exige plena coordenação das indústrias e centros de pesquisa, a fim de somar e aplicar a experiência e conhecimento científico na construção, instalação e operação de turbinas e geradores de alta tecnologia, que, por sua localização, tamanho e características, representariam uma transcendente contribuição para o século 21.

Perante tal horizonte de trabalho e desafio industrial, a conjunção de esforços e investimentos energéticos e de capitais dos fabricantes associados com governos e empresários regionais é fundamental. A mesma finalidade e compromisso deve prevalecer para a implementação dos sistemas de transmissão e transformação de eletricidade, já que, pelas restrições de caráter ambiental, as distâncias até os centros de consumo, as dificuldades de extensão, as desapropriações, sua construção cada vez se complica e encarece mais. Daí que a transmissão e interconexão se fariam também mediante materiais, equipamentos e processos de instalação-retransmissão de alta tecnologia, a fim de que, no futuro, exista a possibilidade de se conectar toda a rede sem infra-estrutura convencional.

Com imaginação, pesquisa, invenção e decisão de consórcios financeiros, industriais, construtores e investidores, as FHC propostas, com base em modernos conceitos de planejamento e projeto, seriam uma realidade. Em conseqüência, sua abundante e econômica produção hidrocinética (apenas nos rios principais, estimada em 12 milhões de gigawatts·hora, 70% da atual geração mundial de eletricidade) se converteria num apoio estratégico e prioritário para se economizar grandes volumes de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão), e reduzir custos, riscos e as oposições inerentes à energia nuclear, bem como a sua ampla contribuição para proteger e restabelecer o clima terrestre.

Sem dúvida, sua consecução exige outra visão e mentalidade para enfrentar, transpor e superar o desafio de aplicar, acrescentar e diversificar planos e programas de geração maciça de energia elétrica, nos rios inviáveis para os projetos hidrelétricos convencionais. É de se supor que organizações como a ONU, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), a União Européia e entidades internacionais de cooperação e fomento teriam uma função preponderante no apoio, com renovadas políticas e alianças de progresso, às diversas e sucessivas etapas que integrariam a implementação universal das FHC fluviais e marinhas.

Fazer das FHC um propósito eqüitativo e um compromisso iniludível, entre países e povos que têm e compartilham importantes rios e estreitos marinhos, e estender sua produção energética a outras regiões ou nações além-fronteiras, fortaleceria um destino comum de colaboração e cimentaria os esforços conjuntos para assegurar às futuras gerações uma alta qualidade de vida.

Do correto aproveitamento da infindável energia de movimento que rege o Universo infinito, da vontade e determinação política de governos, organismos multinacionais e instituições financeiras e econômicas, os rios de energia gerados pelas Frentes Hidrocinéticos, além de um produtivo negócio internacional, representariam um inapreciável benefício para a Humanidade.